About my photographic self

In the end of February of 2012, I had the privilege of giving a presentation in Faro, in the fantastic Centre for Performative Arts of Algarve (CAPa), under the WIP - Work in Progress sessions, organised by Susana Paiva | The Portfolio Project. This presentation was about the genesis and relevance - for me as the author - of a personal project I'm currently working on, Thread of Life. And in the dynamic and fruitful discussion session that followed the presentations, there was this person who made an interesting remark about sharing the processes of thought and mental construction of the photographer's work (or the 'artist', in general). Not only regarding the processes themselves, but also regarding the contribution that theses processes have towards the construction of the photographer - or the artist - inner self. Between this remark and the previous conversation with Susana Paiva about the work that I was about to present, I felt the urge to write down a little bit about my own processes, in order to try to organise my thoughts, my logic, but also - or above all - to try to get a clearer picture of myself. Although conscient of the relative value of this process, I am presenting that text here for those of you which, similarly to that person in the audience, might be interested about this curious process, simultaneously registry and self-construction.

My photographic self

For someone who never stopped to think about the life he wanted to follow, and who was interested in letting life follow his own course, flowing like the wind, I am starting to realise that, similarly to photographic work, maybe life could use a little more of though. I imagine how ridiculous this might sound to many people. But the truth is that, for someone who is 44 and managed to arrive to this point in life following things that naturally came along around him, without the need for too much though about it, that is definitely new to me. And it was photography that brought it in. Because I finally realised - let's see if I start applying it… - that it is necessary to think all photographic work. As Susana himself told me once, you first need to know where you stand, then you need to know what you want to tell or show, and only then you can find a way of doing - or presenting - it.

Looking back at my photography, it is as if it was made almost backwards. Not to say that it lacked any thought, but initially it was mainly aiming for no more that a search for the beautiful snapshot, the family memoir, the cliché (regarding both the natural and human landscapes), or the visual harmony of the composition. And even those projects with which I feel more satisfied, are nevertheless projects without too much thought, without any carefully planned formal structure, without a clear goal. They are, above all, a product of feelings. This is not necessarily a problem in itself. I think. Because without a feeling you cannot produce anything, obviously. But it could be a limitation. In the potential of these same projects (or in the fulfilment of that same potential). And in the potential of other projects.

I sort of feel myself as a cheater. In the sense of collecting, or writing the visual. And then - only then - writing the text which supports it. But which flows from the images. As if the images were necessary for my - photographic? - thought (and this question about images vs. words, about an image being worth a thousand words, needs another writing / thinking, on another day). 

But this personal project about my Thread of Life was different, as I needed to write about a project still in its beginning. And I understood - only latter, and only by an external intervention - that the text I wrote was more than the images that I had until then (which should be expected, as it is on an early stage) but, above all, the text says more than what I was consciously thinking about the project. Once more I see myself hiding from the others, avoiding excessive exposure, even to myself. And this on a project which I want personal - but in which I try to avoid being too much exposed?… 

And in between all these things, I realise that photography merges with my own Self. I am photography (and not in the sense of me being The photography, I hope you get it!). Or, perhaps in a more humble way of putting it, I feel myself a photographer, even if a bad, insufficient, lazy, not-enough-thinking, not-enough-acting, not-enough-explorer photographer. 

Maybe the clue - for what?… - is in the writing. In my writing. In the writing I hardly do. About photography, mostly. Because, based on the feedback that I get, I start to understand that my writing about the small - and few - projects to which I try to answer, has more to it than what I put there on a conscious level. Once more I grow conscious of the relevance of writing as a tool to access the subconscious mind. As if this subconscious level was taking advantage of my writing to leave me clues. Two different worlds, insisting on barely touching themselves, seldom tangential, often parallel for a lifetime. 

It is perhaps a kind of despair which leads me searching for a thread of life through photography. As if, with it, I could be able to discover a Self that I don't know, but which I envision somewhere, a Self in urgent need to be found. A Self seeking to find himself truthful and realised. As if, with photography - or through photography - I could find a way to a memory - or through a memory - which I don't seem to have. But which I feel could be a bridge between my conscious and unconscious Selfs.

Thread of life

[PT] Numa apresentação que tive o privilégio de fazer em Faro, nas fantásticas instalações do Centro de Artes Performativas do Algarve (CAPa), no âmbito das sessões WIP - Work in Progress, organizadas pela Susana Paiva | The Portfolio Project, apresentação essa sobre a génese e a importância - para mim, claro - do trabalho 'Um fio condutor', um trabalho pessoal em curso, houve uma pessoa da plateia que, na animada sessão de diálogo que se seguiu, fez um interessante comentário sobre a partilha do processo de pensamento e de construção mental do trabalho do fotógrafo (ou do 'artista', no geral), mas também do contributo desse mesmo processo para a construção do próprio fotógrafo, ou artista, enquanto elemento interessante de estudo. Entre este comentário, e a conversa prévia com a Susana Paiva sobre o trabalho que ia apresentar, senti necessidade de escrever, para mim, um pouco mais sobre o meu processo, como forma de tentar organizar o meu pensamento, a minha lógica, mas também - ou mesmo talvez sobretudo - para me tentar conhecer melhor. Mesmo consciente do valor relativo da coisa, fica aqui esse texto, para aqueles que, à semelhança dessa pessoa na plateia, se possam interessam por este curioso processo, simultaneamente registo e auto-construção. 

O meu Eu fotográfico 

Para quem nunca parou para pensar na vida que queria levar, e que apenas estava interessado em deixar a vida seguir o seu rumo, ao sabor do vento, dou por mim a perceber que, à semelhança da fotografia, talvez a vida precise de um pouco mais de pensamento. Imagino o quão ridículo deve parecer esta conversa para muita gente. Mas a verdade é que, para quem tem 44 anos e se aguentou até agora seguindo o que naturalmente lhe ia aparecendo na frente sem ser preciso pensar muito - sobre os caminhos a seguir na vida, quero eu dizer! - isto é novo para mim. E foi a fotografia que o trouxe. Porque percebi finalmente - quer dizer… vamos lá ver se o aplico… - percebi finalmente, dizia eu, que é necessário pensar - bastante, talvez - o trabalho fotográfico. Como a própria Susana me disse relativamente à fotografia, é preciso primeiro saber onde nos encontramos, depois saber o que queremos dizer ou mostrar, e só depois encontrar o Como o fazer. 

Olhando para trás, grande parte da minha fotografia parece ser quase feita ao contrário. Talvez não totalmente o inverso, porque vejo muita dela sem pensamento sequer. Pelo menos não mais do que o querer o bonito, a memória da família, o cliché (seja ele na paisagem natural ou na humana), ou a harmonia visual da composição. E mesmo os trabalhos que - ou melhor - com os quais me sinto mais realizado, são apesar disso trabalhos sem grande pensamento por trás, sem grande estrutura formal, cuidadosamente pensada, com um objectivo claro. São sobretudo obras do sentimento. Não é que isso em si seja um problema. Digo eu. Acho eu. Porque sem sentimento não se faz nada, claro. Mas pode ser uma limitação. No potencial desses mesmos trabalhos (ou no aproveitamento desse potencial). E no potencial de outros trabalhos. 

É um pouco sentir-me um 'enganador'. No sentido de recolher ou 'escrever' o visual. E depois - só depois - escrever o texto que o suporta. Mas que sai das imagens. Como se as imagens fossem necessárias ao meu pensamento - fotográfico? (e esta conversa sobre fotografia vs. palavras, do clássico - e por vezes tão errado - Uma imagem vale mil palavras, precisa de uma outra conversa, feita noutro dia). 

Mas com esta questão do projecto pessoal sobre Um fio condutor, foi curioso ter escrito um texto - por necessidade - sobre o projecto que ainda está em fase de arranque. E perceber - só depois, e só por intervenção externa - que o texto é mais do que as imagens que tenho até ao momento (como seria de esperar, é certo), mas, sobretudo, que o texto diz mais do que aquilo que conscientemente estava a fazer do/no trabalho. Mais uma vez me vejo a 'esconder-me', a evitar expor-me aos outros, até a mim mesmo, num projecto que quero pessoal - mas que evito seja demasiado expositivo?… E no meio destas coisas vou percebendo que a fotografia se funde com o meu Eu. Eu sou fotografia (e reparem que não usei um 'a' lá no meio!). Ou, mais humildemente, eu sinto-me fotógrafo, mesmo se um mau, insuficiente, pouco pensante, pouco actuante, preguiçoso, pouco explorador fotógrafo. 

Talvez a pista - para o quê?… - esteja na escrita. Na minha escrita. Na escrita que quase não faço. Sobre a fotografia sobretudo. Porque, do feedback que vou tendo, começo a perceber que a escrita sobre os pequenos - e poucos - projectos a que tenho tentado responder, é talvez mais do que o que lá coloquei conscientemente. Mais uma vez tomo consciência da importância da escrita para o acesso ao meu Eu subconsciente. Como se este aproveitasse a minha escrita para me deixar pistas. Dois mundos distintos que insistem em mal se tocar, raras vezes tangenciais, quase sempre paralelos toda uma vida.  

Talvez seja uma espécie de desespero que me leva a procurar um caminho através da fotografia. Como se com ela conseguisse descobrir um Eu que não conheço, mas que pressinto algures, um Eu em necessidade urgente de ser encontrado. Um Eu à procura de se encontrar verdadeiro e minimamente realizado. E é como se com a fotografia - ou através da fotografia - pudesse encontrar um caminho para uma memória - ou através de uma memória - que pareço não ter. Mas que sinto poder fazer essa ponte entre o Eu consciente e o Eu subconsciente.

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